23 de abr. de 2007

Enviado a Senhor F, 22 de março.

Saiba como foi o Festival Fora do Eixo

Entre os últimos dias 12 e 18 aconteceu em São Paulo o Festival Fora do Eixo. Sua produção foi encabeçada pelo grupo de trabalho cuiabano Espaço Cubo, mas contou com a participação de todo o Circuito Fora do Eixo. Sob esse nome, reúnem-se produtores independentes de diversas partes do país.

Incluídas aí estão as bandas. Grupos de todas as cinco regiões do Brasil puderam, no Festival Fora do Eixo, mostrar seus trabalhos a São Paulo, onde o rock independente está consolidado de forma ímpar. Citado incessantemente em entrevistas, o grande trunfo do evento foi a possibilidade de fortalecimento de redes de contatos. Bandas conhecendo outras bandas, produtores e, sobretudo, jornalistas.

A mídia paulistana (especializada ou não) tem papel fundamental na construção do cenário roqueiro nacional. Assim, a divulgação do Festival nos veículos locais era o principal objetivo. Entre as presenças notáveis, nesse sentido, o jornalista Lúcio Ribeiro, os programas Metrópolis (Cultura) e Trama Virtual (Multishow).

Outro ponto interessando do Fora do Eixo foi realizar seus shows em diversas casas de São Paulo. Desta forma, travou-se contato com diversos donos de clubes e apresentou-se a música do Circuito Fora do Eixo para vários tipos de público.

E como foram os shows? Houve espaço para sucessos certeiros como Vanguart (MT), Pública (RS), Macaco Bong (MT) e Porcas Borboletas (MG). E, também, para boas surpresas como O Quarto das Cinzas (CE) e Revoltz (MT). Senhor F esteve presente aos shows do primeiro (segunda, 18 de março) ao quinto dia.

No sábado, houve a interessante idéia de se debater os rumos no Circuito Fora do Eixo. No domingo, os shows aconteceram na Outs e foram escaladas as bandas Zefirina Bomba (PB), Trilöbit, Camundogs (AC) e Chili Mostarda (MT).

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Enviado a Senhor F, 22 de março.

Fora do Eixo, dia 5: Porcas Borboletas no Studio SP

*Pedro Acosta

“Colagem é o básico”. Assim o vocalista Danislau define o som de sua banda, Porcas Borboletas (MG). Mas a definição também serve para o Studio SP, onde aconteceu a quinta noite de Festival Fora do Eixo. A casa fica na efervescente Vila Madalena e, em sua arquitetura cheia de recortes, anuncia uma noite em que nada é plano e simples.

O Studio se abre numa escadaria que leva à pista. No mesmo nível da pista, há uma varanda que não se conecta diretamente com a escada. Os degraus continuam até um deque de madeira, mas atrás deles há um banheiro. Por todas as paredes, cartazes e adesivos, cobrindo-as por inteiro. Neles, lêem-se coisas tão díspares quanto “Om Nanah Shivaya”, “war is peace” e “cemporcento skate”. Sobre essas paredes, aparecem pranchas de surfe decoradas por artistas plásticos.

Quando a DJ assume o som, “Staring At The Sun” (dos pós-roqueiros nova-iorquinos TV On The Radio) é tocada logo antes do sucesso da Jovem Guarda “Splish Splash”.

As cortinas vermelhas se abrem, e o Porcas Borboletas injeta mais frases e sons no já fervilhante turbilhão de referências. “O Silvio Santos de hoje é feito de plástico”, bradam logo na primeira música, que ainda fala de horóscopo. “Eu sinto muito, mas eu não sinto nada”, diz outra canção.

A certa altura do show, menciona-se uma parceria com Arnaldo Antunes (na verdade, seu poema “Eu” foi musicado pelo grupo). Nem precisava dizer. O grupo é claramente influenciado pelas experiências dos anos 80, incluindo-se aí os Titãs e a chamada Vanguarda Paulista (de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção).

Assim, o Porcas Borboletas parte do rock oitentista, chegando aos estilos regionais brasileiros, geralmente em combinações sincopadas. Ainda, há uma preocupação evidente com a performance e a poesia. Essa última resulta em refrãos insistentes cantados à toda pelo público. “É melhor dizer/Amor, acabou a cerveja!/do que chorar/Cerveja acabou o amor!”, no maior sucesso da noite, “Cerveja”.

Apresentou-se também a goiana Valentina.

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Enviado a Senhor F, 22 de março.

Fora do Eixo, dia 4: Pública e Vanguart no Vegas

*Pedro Acosta

Em sua quarta noite, o Festival Fora do Eixo encontrou o ouro. Seja no dourado que domina a entrada do clube Vegas, ou no grande comparecimento do público. O Vegas fica na clássica Rua Augusta e quinta-feira é um dia tradicionalmente movimentado. Tanto na rua quanto no clube. Nesse dia da semana, a casa promove a festa Rockafellas, com imenso sucesso. Assim, Pública (RS) e Vanguart (MT, agora morando em São Paulo) se apresentaram dentro de uma noite “Rockafellas especial Festival Fora do Eixo”.

De qualquer forma, o público lotou o lugar. Suas caprichadas roupas em concordância com a decoração rococó do local. Cheio de luzes neon e lustres aparentando suntuosidade, o Vegas é bem sucedido no esforço de remeter à cidade que lhe dá nome, como também remete a um bordel. No fim, todo o aparato inspira mais a lançar-se numa pista de dança, como alguns fizeram. No andar inferior, durante toda a noite, DJ’s tocavam rock em remixes e o que se tem chamado new rave.

Pública

Os cinco integrantes do Pública se espremem em cima do palco enquanto o público se esbarra na pista. O show foi atrasado até depois de 1:00 e agora a platéia está cheia e ansiosa. Uma massa sonora confusa é projetada pelo equipamento no início da apresentação. Mas progressivamente as coisas se acertam e a melancolia sessentista do grupo se revela.

Levadas pela batida de teclado de “Long Plays”, as cabeças meneiam pelo salão. “Já comprei todos long plays dos artistas que você sempre gostou, mas mesmo assim estou só”. Ao ouvir versos assim, a menina de blusa estampada em preto e branco faz um sinal de “fofo” com as mãos.

Com “Bicicleta” aparecendo no repertório – seu nome podendo ser referência tanto ao veículo quanto a uma variedade de ácido lisérgico – o show ruma à psicodelia. Tal jornada explode no número final, “Luzes”.

Como se tivessem cansado do aperto do palco, baixista e guitarrista solo duelam abaixo dele, viajando por texturas e momentos. Por toda parte, há lâmpadas piscando freneticamente no Vegas. O mesmo frenesi se espalha pela pista, onde público, fotógrafos e cinegrafista tentam não esbarrar nos músicos, se esforçam para não interromper o momento.

Vanguart

Lá pelo meio do show: “agora vou cantar umas músicas novas, umas coisas de amor, umas bobagens. Não precisa gostar.” Tendo todas as atenções para si, Helio, vocalista do Vanguart, anuncia assim um grupo de músicas em português que devem estar presentes no vindouro disco. De acordo com a banda, o álbum já está gravado. Segue a pós-bossa nova de “Enquanto Isso na Lanchonete”. As luzes piscando sem frear e o som dançante que escapa da pista inferior lhe são hostis.

A próxima é “Para Abrir os Olhos”. Sobre um country suave, Helio conta que está há noventa dias em seu barco à vela, mas que não se sente tão sozinho por ter seus amigos: “só aparecem quando eu bebo”. E o que mais ele tem a dizer sobre seus amigos?

Logo nos primeiros acordes, “Semáforo” é saudada com uivos. Um coro tímido aparece no refrão. Mas a platéia explode mesmo quando Helio fala, no fim da canção, do que agora parece ser seu assunto favorito: “todos meus amigos... (gritos histéricos, uivos) querem... morrer!”

Uma vez acabado o caos de guitarra que marca o fim de “Semáforo”, ainda há espaço para uma versão de “I Will Survive” (do repertório de Gloria Gaynor), tão disco quando a original; alguns clássicos da banda; uma versão para “Outlaw Blues” (Bob Dylan). Ao fim, Helio está ajoelhado no palco, deslizando violentamente sua mão pelo braço do violão. O rapaz de camiseta preta debruçado sobre o palco imita chamas com as mãos. No telão, Johnny Cash aparece.

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Enviado a Senhor F, 21 de março.

Fora do Eixo, dia 3: Rockassetes e Revoltz no Dynamite

*Pedro Acosta

Terceiro dia de Festival Fora do Eixo, terceira região de São Paulo a ser explorada. Desta vez, foi a Vila Madalena (Zona Oeste): mais agitada que a Barra Funda da Casa Belfiori, menos ousada que a Rua Augusta do Inferno. Na noite de quarta-feira, o Dynamite Pub abriu excepcionalmente suas portas para receber Mandrake (SP), Rockassetes (SE) e Revoltz (MT). A casa tem um bar no andar térreo e, acima, uma pista e uma varanda.

Os shows aconteceram na parte superior do sobrado, numa pista consideravelmente menor que as anteriores. A escolha do escuro bar foi ideal para uma noite sem bandas com público paulistano consolidado.

Rockassetes

“O Playcenter!” Respondendo assim a pergunta sobre qual a maior vantagem de a banda morar em São Paulo (e, logo depois, se explicando), os Rockassetes revelam-se, num tempo, lúdicos e irônicos. O mesmo acontece em seu show.

O grupo sobe ao palco por volta de 0:10 e dá início ao baile. O baixo bem marcado e dançante, o não uso de intervalo entre canções e até a ausência de clareza no som dos microfones levam a um bailinho dos anos 60. A luz refletida em mil pontos pelo globo de espelhos colabora com a impressão. Mas as paredes pretas do Dynamite Pub discordam.

E a própria banda, também. No início, o show tem letras como “eu deveria te esquecer e não falar mais com você”, canção sobre paixão por uma garota do prédio e menção de “You’re Going To Lose That Girl” (Beatles). Mais para o fim, aparecem tons um pouco mais sombrios, à moda dos anos 90, e até um flerte com o blues.

Revoltz

Com suas inúmeras referências a entorpecentes, as letras da Revoltz são cheias de submundo. Assim, o som do grupo encontra casa num ambiente menor e mais escuro como o do Dynamite Pub. A proximidade com o público parece encher de anfetaminas as canções do grupo, já aceleradas para o show.

Enquanto o vocalista e baixista Ricardo, agasalho Adidas e olhos pintados, canta posando para fotos, a tecladista Marcela requebra-se ao seu teclado de som quase infantil. “Os técnicos geralmente vêm ligar meu teclado e quase perguntam cadê o de verdade”, ela ri.

Mas o timbre do instrumento marca o som da Revoltz, de refrãos fáceis, baixo pulsante e sotaque new wave. E estando a new wave na ordem do dia, Ricardo promete, com seu sotaque gaúcho, que seu próximo disco será “eletro, elétrico e moderno”. O nome do álbum é “Beijo No Escuro” e seu lançamento é prometido para abril.

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